REPORTAGEM: VILA PRUDENTE NA LUTA POR MORADIA

Publicado por Cesar Gouveia – 26/09/2014 – às 00:10 

Por Cesar Gouveia e apuração de Kassia Bobadilla

Na última terça-feira, 16, a desocupação do prédio na São João chamou a atenção da cidade pelo confronto entre ocupantes e a PM. Diversos locais têm sido palco de ocupações e a Vila Prudente não é diferente

Foto: Kassia Bobadilla
Dois terrenos foram ocupados na avenida Doutor Francisco Mesquita que faz divisa com São Caetano desde agosto. Pessoas que nasceram e que ainda residem nas favelas do bairro reclamam dos altos valores cobrados nos aluguéis, inclusive nas favelas. Para fugirem da alta especulação que se instalou no bairro nos últimos anos, esses moradores consideram as ocupações como a única solução que restou diante do descaso do governo do Estado e da Prefeitura quanto a ausência de projetos por moradia para pessoas de baixa renda na região.

Em São Paulo, é comum ver favelas nascendo ou terrenos sendo ocupados, como na própria av. São João, isto está relacionado à especulação imobiliária a que nossa cidade está sujeita. Lucimara, de 36 anos, está em uma das ocupações da Vila Prudente desde o dia 16 de agosto, no momento desempregada e sem condições financeiras para comprar sua casa ela se articula com outras pessoas e conta que “Nossos órgãos públicos não pensaram no futuro das próximas gerações e não pensam. Eles não querem, né? Mas, a ocupação foi a única coisa que restou”.  A ocupante conta ainda que atualmente mora de aluguel em uma das favelas com o marido e filhos e está pagando R$ 800,00 e completa, “Aqui, só aconteceu porque na Vila Prudente faz muitos anos que não tem projetos de habitação”.

O bairro passa por mudanças e a mais impactante tem sido a obra do monotrilho e suas indefinições. Moradores da favela da Vila Prudente se mobilizam em diversas ações para pressionar o governo, de modo a destinar e garantir moradia para todas as famílias que serão removidas devido às obras de interligação entre o monotrilho (Linha 15 – Prata) com a estação de trem do Ipiranga, a qual se encontra há dois quarteirões da favela.

Cleison, que também está em uma das ocupações conta que trabalhou durante anos aqui em São Paulo e não conseguiu construir uma casinha para ele e a família, viveu e vive de aluguel, e no momento está desempregado “Já vi gente dizer que só porque não estou trabalhando eu não sou digno de ter uma moradia. Eu perdi o emprego não foi eu quem pedi para sair e não encontro outro e agora com o pessoal eu falei: vou procurar uma moradia pra mim, porque trabalhando não consegui”, disse ele.

Foto: Kassia Bobadilla
Depois da desocupação na São João ouviu-se dizer que movimentos que lutam por moradia seriam “oportunistas”, Lucimara no entanto garante que não há “A Frente de Luta por Moradia não tem ligação nenhuma com política, nós não temos. O MDF (Movimento de Defesa dos Favelados) também. A gente só luta por uma casa para nós e nossos filhos”.

Essas ações de ocupação apoiam-se em nossa Constituição Federal de 1988 que garante no seu artigo 5º, inciso XXIII que “a propriedade atenderá a sua função social” o que diz respeito à moradia. Os terrenos atualmente ocupados na Vila Prudente encontravam-se vazios, inabitados e inutilizados, estão agora, portanto, cumprindo o que diz a Constituição.

Com base em dados do Censo de 2010, em São Paulo havia 290 mil imóveis inabilitados e uma demanda de 130 mil famílias sem moradia. Entretanto, casos como o de Cleison e Lucimara não são os únicos e milhares de famílias não têm outra saída senão ocupar imóveis e terrenos para assim tentar equilibrar a conta a qual o Governo caminha a passos de tartaruga para resolver.
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CARTA ABERTA DE ANDRÉ SILVA AO JORNAL FOLHA DA VILA PRUDENTE

Publicado por Cesar Gouveia – 17/09/2014 – às 16h45

Por que o direito de resposta não me foi dado?

Faço esta carta aberta endereçada ao jornal Folha da Vila Prudente por conta do artigo “Ideal Sob Suspeita”, veiculado no semanal de 12 a 18 de setembro de 2014, o qual coloca-me como instrumento que será engolido pelo Sistema.

Do meu ponto de vista fora cometido uma injustiça diretamente a minha pessoa e não um agravante provocado à credibilidade de um jornal como a Folha de Vila Prudente.

Para um jornalista compor uma matéria ele necessita de averiguação concreta e confirmação de fontes seguras, eu na condição de não jornalista tenho conhecimento disto e esperava isto de qualquer veículo sério de comunicação. Neste citado artigo se questiona a minha postura ética, algo que faltou à Folha de Vila Prudente.

Tenho 38 anos e sou morador da favela de Vila Prudente, filho de migrantes nordestinos, nasci, criei-me e moro no mesmo local. Constituí família e na participação na comunidade de base da Igreja Católica, mais precisamente na igreja São José Operário aprendi a transformar a fé em ação concreta.

Assim a convite do Pe. Patrick Clarke integrei a equipe central do MDF – Movimento de Defesa do Favelado – Região Episcopal Belém e lá aprendi, através da missão do MDF que é: a defesa e promoção da dignidade do favelado na sua dimensão artística, política, pedagógica e religiosa, mediante o tripé: PRESENÇA, resistência e solidariedade.

Essa missão tem norteado a minha vida tanto social quanto política, assim atuei na luta para a conquista dos títulos de posse da favela de Vila Prudente, na constituição da COOPERATIVA DE CATADORES RECIFAVELA, que saiu dos baixos do viaduto e está conveniada com a prefeitura, mesmo que tenha aparecido candidatos da região propagandeando na mesma Folha de Vila Prudente que atuou nessa questão, estranho que nenhum membro da cooperativa se recorde dele.

Atualmente tenho feito a articulação entre a comissão de moradores e o metrô sobre os impactos do monotrilho na favela, tenho participado das conferências de habitação, plano diretor entre outras, fui membro Conselho participativo municipal da subprefeitura de Vila Prudente, sendo inclusive o mais votado e exerci tal função de coordenador

Fui convidado a estar na subprefeitura de Vila Prudente trabalhando na Supervisão de Habitação. E conscientemente da minha missão de PRESENÇA, resistência e solidariedade mais uma vez respondo ao chamado de estar a serviço da população, me colocando à disposição, não de um partido político como insinua tal publicação do jornal, mas da população de Vila Prudente que publicou em seu veículo difamação de minha pessoa sem que me dê direito de resposta. Uma decepção.

Por fim, tal publicação não irá me parar continuarei a serviço da população do bairro e não às opiniões que tentam me difamar. Cito aqui um trecho da saudosa filósofa Valesca: “ “beijinho no ombro”.

Oficina de Repórter acontece em escola municipal para alunos do oitavo e nono ano

Por Cesar Gouveia – 15/09/2014 – 06:30

A Escola Municipal Irineu Marinho que está localizada no bairro da Vila Prudente, zona leste de São Paulo, foi o primeiro espaço de educação na região a receber a oficina de repórter. 

Professores e alunos estão executando o trabalho de conclusão de ano – TCA, implantado na escola a partir deste ciclo letivo. Assuntos como: “gravidez na adolescência”, “obras do monotrilho” e “violência policial no bairro”, são investigados pelos alunos para serem apresentados ao final do ano. Nos dias 19 e 26 de agosto o Vozes das Comunidades da Vila Prudente e o Periferia em Movimento estiveram presentes.

Os jovens do oitavo e nono ano da escola puderam trocar ideia com os jornalistas Cesar Gouveia, do Vozes das Comunidades da Vila Prudente, Aline Rodrigues e Thiago Borges, do Periferia em Movimento que, voluntariamente, toparam participar da ação. 

Aline Rodrigues, Cesar Gouveia e
Thiago Borges.
Conversaram sobre o que é ser um jornalista, o que faz o profissional, o que é notícia e como produzir um bom texto ou vídeo reportagem. Vivenciaram também o trabalho de um repórter em apuração indo aos espaços da escola pesquisar sobre diversos assuntos, dentre eles os próprios do TCA: gravidez na adolescência, moradores de rua, cantina da escola, música e a falta de lazer nas comunidades.

O grupo que retratou a gravidez na adolescência perguntou o que o governo poderia fazer para controlar o número crescente de jovens grávidas: “programas e projetos educativos na escola, por exemplo, seria uma forma de controlar”, disse uma funcionária da escola. 

Outro grupo questionou sobre o que poderia ser feito pela população para ajudar os moradores de rua: “as pessoas devem acionar os órgãos da prefeitura e respeitá-los mais”, e completou que contribuiria com algum projeto da comunidade para ajudá-los.

Quando a pauta foi música, os estilos mais ouvidos segundo os próprios alunos que foram entrevistados é o pop e o funk. Sobre lazer nas comunidades a entrevistada foi a Tia Lisa que, ao ser questionada sobre o que faz com a família para se divertir, disse: “Vou ao cinema, parque, shopping e ao museu, mas aqui na Vila Prudente falta um teatro mais próximo. Um espaço de cultura teatral”.

Alguns alunos pegaram o gancho da raiz e foram as entrevistas entender a história dos colegas de sala, de onde seus familiares vieram. “Meus pais não moravam na comunidade quando nasci, mas eles pretendiam. Minha mãe disse que, naquela época ainda, o bairro não era tão violento”, disse um dos estudantes.

Dinâmica de entrevistas
Os alunos, depois da oficina, continuarão os trabalhos de apuração para os assuntos do TCA e semanalmente os próprios atualizarão blogs que foram criados para acompanhamento dos professores além da sala de aula.

Quer conhecer mais sobre o Vozes das Comunidades da Vila Prudente, clique aqui, e o Periferia em Movimento, aqui.

Realizada durante a Oficina de Repórter as citações presentes tiveram apuração coletiva e fotos de: Jhonatan de Souza F., Jhones Siqueira de O., Emilly P. C., Lucas Gabriel, Aline Tavares, Mayara A. S., Taiane, Bia, Gabriela, Jorge, José N. Alves, Gabriel S. Brito, Lucca A. Ferreira, Abigail F., Vitor, Gabriel, Ingrid, Giovanna, Richard, Chrigor, Lucas, Hilary, Jorge, Matheus, Lucas, Danilo, Gabriel, Vitor, Tauane, João Vitor, Estela, Vinícius, Vanessa, Wallace, Alenny, Flávia e Felipe. 

Orientação de: Cesar Gouveia, Aline Rodrigues e Thiago Borges.

Fotos e apoio operacional: Michelly Lima.

Texto final: Cesar Gouveia.
Agradecimentos: Professoras Michelly e Rita, coordenação escolar, funcionários e alunos.